A Rádio em Portugal: um pouco de história e perspectivas de
evolução1
Paula Cordeiro
Universidade do Algarve
Resumo: Este artigo revela alguns elementos da
história e da evolução da rádio em Portugal ao
longo dos últimos cinquenta anos, apresentando sucintamente a
fase da produção de consensos e dialogismos; a fase da
rádio de programas na década de oitenta com as rádios
piratas; a fase de formatação da programação e o
caminho da especialização, bem como a expansão que a
rádio tem actualmente para a Internet.
A rádio é um meio de comunicação extraordinariamente rico,
com uma narrativa singular e para muitos, fascinante. A compreensão da
Rádio não pode dissociar-se do país e da sua História, no
contexto do desenvolvimento económico, cultural e social, numa
observação que se deve desenvolver a partir das estruturas que
desenham a operacionalidade deste meio.
Para melhor conhecermos a rádio, devemos procurar decifrar os trilhos do
paradigma comunicacional moderno, no que toca à problemática das
mudanças operadas pela tecnologia. O desafio das novas tecnologias tem
sido um factor de renovação para a rádio que, ao longo dos
últimos anos, se tem vindo a reinventar, quer ao nível da
produção, dos conteúdos e das formas de recepção das
emissões.
A sumária análise que se apresenta em seguida resulta de uma
investigação desenvolvida para uma dissertação de mestrado
defendida em 2003, apresentando uma análise eminentemente teórica
sobre as implicações dos novos media e o desenvolvimento
tecnológico da rádio, dentro de um panorama de
(re)configuração do universo comunicacional que é operado pelas
novas tecnologias da informação.
A rádio é um meio que tem assumidamente uma relação
privilegiada com o público, não só pela estrutura da
comunicação como por se assumir como um meio de comunicação
bidireccional, que potencia a participação dos receptores na
comunicação.
Atravessamos numa fase de transição, um momento particular na
rádio portuguesa, caracterizado essencialmente pela mudança, ou pela
existência de elementos que propiciam essa mudança.
Este momento vai seguramente aumentar as potencialidades comunicativas da
rádio e, pelas suas características, transformar a rádio num
meio essencialmente interactivo.
Com um passado que remonta ao início do século XX, o enquadramento
histórico do meio em Portugal, apresenta diversas fases que aqui se
enunciam:
Depois de um longo percurso de carácter instrumental e com uma
comunicação fundamentada num modelo consensual de subserviência
ao regime, a rádio inovou a sua comunicação e desenvolveu novos
modelos de carácter dialógico, baseados num cariz fortemente emotivo
e experimentalista, contrastantes com o cunho monocórdico que vigorou
até meados da década de setenta em virtude do regime político
autoritarista que instalado até então.
Os chamados anos de ouro da rádio, que oscilam entre 1930 e 1950,
traduziram-se num fenómeno de radiodifusão que procurava reconstruir
a realidade dentro do estúdio, com dramatizações e
espectáculos produzidos na própria estação emissora. Os
programas humorísticos estavam sob vigilância da censura, obrigando
a manobras linguísticas para que os textos passassem. Muitos
``sketches'' faziam piadas disfarçadas ao regime, à semelhança
do que se fazia no teatro de revista.
O regime político autoritário
2 estabelecido em Portugal tinha
um serviço de censura prévia às publicações
periódicas, emissões de rádio e de televisão, e de
fiscalização de publicações não periódicas nacionais
e estrangeiras, velando permanentemente pela pureza doutrinária das
ideias expostas e pela defesa da moral e dos bons costumes. As
relações da rádio com o poder político centravam-se numa
estratégia de manipulação da opinião pública em defesa
dos valores proclamados pelo Estado Novo. Ao efeito de novidade da escuta
deste novo meio, juntou-se o monopólio da comunicação, que
consolidou o poder de Salazar. A radiodifusão estava reservada aos
governantes e todas iniciativas que pudessem prejudicar o regime eram
imediatamente proibidas.
Ao longo dos anos que o salazarismo, e depois, o marcelismo, dominaram a
comunicação social, a rádio revelou-se um aparelho técnico e
discursivo ao serviço dos interesses de poder, e um instrumento para a
legitimação da ditadura. Era o Estado que atribuía as
frequências, e por isso, o sistema estava altamente controlado.
Nesta altura, a rádio servia para distrair a população,
fazendo-a esquecer, ainda que por breves momentos, da situação de
fechamento a que o país estava votado.
O grande objectivo da programação centrava-se na função de
entretenimento, estabelecendo uma comunicação radiofónica pouco
original, através de programas que procuravam acima de tudo, distrair os
ouvintes dos verdadeiros problemas que afectavam a nação.
Os anos 50 foram marcados pelo aparecimento da televisão em
Portugal
3. Perante o fascínio que o novo meio despoletou, a rádio foi
obrigada a mudar. A criatividade não deixou de se revelar, e a rádio
apresentou alguns programas que surpreenderam a sociedade. Procurou inovar o
seu discurso, dependente não só da novidade introduzida por um novo
meio de comunicação, mas sobretudo para contrariar a uniformidade da
comunicação instrumentalizada pelo Estado Novo.
Foi o nascimento de uma nova fase na rádio portuguesa, mais moderna, em
oposição à anterior. Testaram-se novas configurações,
que se opunham no campo do discurso e da expressão, e desenvolveram-se
novas ideias especialmente no campo da música e da ficção.
A década de 60 viu nascer vários programas impertinentes que se
aproximavam demasiado dos limites impostos pela censura. Ao longo desta
década, a rádio começou lentamente a assumir um papel de
divulgação da cultura. A informação passou a ser um elemento
central para os programas que se especializaram em torno de temáticas
tão diferentes como a informação de actualidade ou a
divulgação musical.
O alheamento da realidade e o sistema confortável de música e
conversa para entreter, mostrava-se caduco, desadequado. A rádio
enfrentava um momento de ruptura, entre uma comunicação
institucionalizada e outra que se construía de acordo com o ritmo e o
dinamismo próprio do pulsar dos acontecimentos da sociedade.
Viveram-se momentos de grande actividade. As horas nocturnas, que eram
consideradas mortas, tornaram-se o principal horário da rádio, com
programas que desenvolviam uma acção informativa e formativa, num
novo formato de rádio que testemunhava e acompanhava a vida nacional.
Emergiu um sistema de comunicação que se emancipou do panorama
instituído e passou a reagir, observando e criticando. A rádio,
valendo-se da especificidade do directo, conseguia muitas vezes escapar
às malhas da censura prévia.
O cenário político nacional e internacional foi de extrema
importância para a contestação ao regime, que se tornou cada vez
mais acentuada: a exoneração de Salazar da chefia do governo em
1968, marcou o final de uma década plena de lutas pelos direitos e
liberdades, movimentos revolucionários e conflitos bélicos de maior
ou menor grau.
Os quarenta anos obstinados de um chefe autoritário chegaram ao fim, e
deu-se início a um período, que embora reforçasse as
restrições à liberdade, ficou para a história como a
``Primavera Marcelista''. Foi neste período que se produziram programas
e reportagens que marcaram a história da informação no nosso
país. Eram espaços que não tinham propaganda ao regime,
programas que mostravam um certo inconformismo em relação à
situação.
O ano de 1974 é de grande relevância para Portugal, tendo a
rádio desempenhado um papel decisivo na revolução que instaurou
a democracia no nosso país. Foi através da rádio que se
mobilizaram as forças militares. Com objectivos definidos para cada
estação implicada, o golpe contou com a rádio para transmitir as
``senhas'' que deram início, confirmaram e puseram em marcha o
movimento das Forças Armadas.
A grande mudança na rádio portuguesa efectivou-se com a
revolução que restabeleceu a democracia e a descolonização.
O desmantelamento do antigo regime iniciou-se no próprio dia 25 de
Abril, com a extinção da polícia política e a
abolição da censura, numa estratégia de democratização
da sociedade portuguesa.
O panorama alterou-se de forma gradual, passando de uma situação que
se caracterizava, em termos muito gerais, pela existência de meios de
comunicação social em poder do Estado, para o predomínio de
media privados.
No pós 25 de Abril, encontramos três fases evolutivas: depois da
libertação do fascismo, com a queda da censura e a conquista da
liberdade de expressão, a rádio mostrou que o mecanismo
analógico da sua comunicação poderia integrar outro, de
carácter dialógico. Seguiu-se então uma primeira fase: a da
nacionalização das rádios em Portugal, que resultou numa perda
da vitalidade do sector, pois o panorama dividia-se entre a RDP e RR. A
segunda fase: resultado da falta de legislação sobre
radiodifusão e da impossibilidade de entidades privadas poderem abrir as
suas próprias estações emissoras, apareceram por todo o
país as rádios livres, ou rádios piratas. Estas rádios
inovaram e experimentaram novos formatos, preenchendo espaços de
criatividade que tinham sido deixados em aberto pelas rádios nacionais.
O conteúdo programático não tinha grande definição, ou
preocupação com as expectativas dos ouvintes. No campo da
informação, concretizaram habilmente uma tendência de
carácter local, dando notícias aos ouvintes da zona onde os
retransmissores escondidos emitiam ilegalmente.
Se por um lado a rádio perdeu muito do que a havia caracterizado, por
outro, veio ganhar novas ideias, um novo dinamismo e futuros profissionais.
Esta é então a terceira fase, de regulamentação do sector
que procurou dar resposta à necessidade de criação de uma lei
que regulamentasse e pusesse uma certa ordem no panorama radiofónico num
processo que terminou em 1989 com a legalização. Muitas rádios
piratas desapareceram, em favor das mais fortes e organizadas, numa
tentativa para adequar a quantidade de rádios ao mercado nacional.
A Reorganização do espectro radiofónico e a respectiva
legalização de algumas das centenas de rádios piratas que
existiam ditou a adaptação a um modelo concorrencial que implicava a
sobrevivência económica de cada estação emissora. Por esta
altura, as rádios apresentavam uma programação generalista,
organizada de acordo com o que se supunha ser o público da
estação. Algumas rádios fecharam, outras alteraram o seu
projecto inicial, num movimento de adaptação que obrigava à
profissionalização da estrutura e da própria comunicação
radiofónica. Como em todos os campos da comunicação social, o
mercado dita as regras, e as rádios tentam (sobre)viver dependentes das
medidas de audiência, para angariar publicidade.
A rádio abandonou a sua estrutura de programação com base em
programas diferentes e bastante concretos, para adoptar uma
programação mais ligeira que se organiza em sequências
horárias ao longo do dia. São rádios que adoptam um estilo
concreto de programação que varia entre a emissão de
notícias ou a emissão de música. Este tipo de
programação radiofónica tem uma audiência muito bem
definida, cuja única exigência é a de aceder a um ``fundo''
musical que as acompanhe enquanto desenvolvem outras actividades.
Recentemente, pouco mais aconteceu na rádio. A única coisa
importante tem que ver com a alteração do esquema de negócio,
que gradualmente foi sendo concentrado em grandes empresas. Tratou-se de uma
alteração empresarial, com as necessárias consequências de
adaptação a um novo estilo de negócio, do qual decorre um novo
conceito que é o de produto radiofónico.
Hoje, o cenário compõe-se de três elementos diferenciados que,
no seu conjunto, constituem o panorama comunicacional da rádio em
Portugal.
Um desses elementos resulta de um conjunto de operadores de pequenas
dimensões, com quadros pouco profissionalizados que produzem um
padrão de emissões de fracos conteúdos e pouca
preocupação estética.
Uma segunda estrutura compõe-se de operadores privados, que desenvolvem
um percurso para a ampliação dos shares de audiência,
independentemente da manutenção da identidade da estação de
rádio.
Este desenho fica completo com a enunciação de um terceiro elemento,
um operador público com recursos significativamente superiores aos dos
parceiros comerciais, mas que não os consegue traduzir numa
programação com maior diversidade e de melhor qualidade, como tem
sido confirmado pelos resultados das audiências do meio rádio.
O final dos anos noventa e a passagem para um novo milénio apresentaram
novos desafios para a comunicação social em geral, e a rádio em
particular. Paralelamente à concorrência já estabelecida pelos
outros meios de comunicação, a Internet foi-se implantando,
redefinindo estratégias de comunicação, criando novos modelos e
forçando todos os meios de comunicação a servirem-se dela
enquanto suporte para se fortalecerem, naquele que se apresenta como o
século da comunicação interactiva.
Face à evolução quer do meio, quer da sociedade e do sistema
económico-comercial em que a rádio se integra, o formato de
programação da rádio dos anos 80 cedeu lugar a outros, mais
específicos, que procuram ir ao encontro de públicos cada vez mais
definidos.
A profissionalização da rádio decorre da clara necessidade de
adaptação do conteúdo ao público, e a consequente
definição de públicos específicos para cada
estação.
As noções de marketing começaram a nortear o funcionamento das
estações de rádio, também no campo da produção,
ultrapassando critérios de criatividade e personalidade, em
função de dados específicos definidos pelos estudos de mercado
e de audiência. O culto do programa de autor começou a desaparecer
face a dados cientificamente comprovados que, ao apresentarem valores
específicos de caracterização do público e dos níveis
de audiência para cada hora do dia, permitiram a definição
concreta dos conteúdos de cada estação de rádio. Mais
importante do que quem e como apresenta, passa a ser aquilo que se
apresenta, a música que toca e a informação que se
disponibiliza, nivelando o público por aquilo a que se chama ``ouvinte
segmentado'' e que é definido pelos estudos de mercado, tal como em
qualquer outro sector de actividade económica.
Hoje, as empresas de rádio fazem parte de grupos económicos mais
amplos que dominam o panorama da comunicação social. Os estudos de
mercado revelam-se mais adequados do que as medidas de audiência e as
rádios passaram a tentar conhecer de forma mais exacta o que as pessoas
querem ouvir. O sentido comercial impôs-se e transformou a estrutura da
rádio em termos de organização e de produto. Os gestores da
rádio são grandes grupos financeiros cujo único objectivo
não é prestar um bom serviço, mas ter audiências e facturar.
Este fenómeno obriga a uma mudança de mentalidades, deixando de
pensar a rádio como um fim em si mesmo - um objecto artístico e
cultural -, passando a encarar a actividade radiofónica como um
negócio que oferece um produto que se quer rentável.
É neste contexto que se separa claramente o que são estações
de serviço público e que, por isso, entre outros aspectos,
deverão garantir a independência dos poderes estabelecidos, sejam
eles políticos, económicos, de natureza privada ou institucional, e
as estações de carácter privado, auto financiadas, com objectivo
de lucrar com a sua actividade e que normalmente definem os seus
conteúdos com base no entretenimento.
Este é um processo que está a decorrer no nosso país, ao mesmo
tempo que se tenta dar resposta aos novos desafios propostos pelo
desenvolvimento da Internet.
Na RDP, a entidade pública de radiodifusão, os problemas são
diversos e distinguem-se entre os diversos canais. A RDP é uma grande
organização com pequenas estruturas dentro de si que produzem
produtos muito diferentes, para além dos desdobramentos da emissão
da Antena 1. Neste canal, a indefinição da linha editorial não
tem deixado desenvolver um projecto contínuo. A ideia de serviço
público prevalece nesta estrutura com uma abrangência que permite
ter todo o tipo de programas. A Antena 2 organiza a sua programação
numa vertente mais cultural, caracterizando-se como um canal elitista, de
música clássica que não toca a cultura em todas as suas
vertentes, nem a apresenta para o público em geral, pela sua postura
erudita de divulgação das formas da cultura essencialmente escrita e
sonora. De facto, a RDP não proporciona (pelo menos para o
território nacional e por isso, excluímos desta sumária
análise a RDP África e a RDP Internacional) um serviço
público efectivo para a população portuguesa. O canal jovem
desta estrutura, apesar da recente remodelação na
programação, não oferece ainda um produto que seja um reflexo
dos problemas e necessidades dos jovens em geral. É um facto que a
Antena 3 cumpre parte das suas funções, assentando numa
programação de divulgação musical, mas falha por procurar
continuamente conquistar mais audiências, num estilo que pouco se
distingue das rádios privadas dirigidas às camadas mais jovens.
É neste contexto que a rádio se desenvolve em Portugal, num panorama
em que a multiplicação dos canais em FM aumentou as possibilidades
de se criarem estações com programação diferente, mas tal
não se verificou. A generalidade das estações não
diversificou a programação, acabando por se criar um panorama sem
grande diferença entre as estações e grupos de rádios. Se
compararmos os horários, verificamos que a programação segue, na
generalidade das estações, o mesmo fio condutor: das seis até
às dez e meia da manhã, a rádio oferece programas que intercalam
a informação (nas suas diversas abordagens, conteúdos e
tratamentos) com um esquema de rádio -- conversa, conduzida por um grupo
de profissionais, de preferência ``personalidades da rádio''.
O panorama não é de fácil catalogação, na medida em que,
por razões legais e de dimensão do mercado, a temática dos
alvarás atribuídos distingue apenas rádios musicais e
informativas. A distinção entre estações nem sempre é
clara, e a formatação dos conteúdos baseia-se normalmente na
segmentação por escalões etários. Na actualidade,
entrámos já numa segunda fase que define os conteúdos da
estação com base nos escalões etários e na
especialização dos próprios conteúdos.
O contexto desta análise desenrola-se num ambiente urbano localizado nas
principais cidades do país, onde coexistem rádios generalistas que
segmentam a audiência em função das idades; rádios
temáticas e que por isso têm à partida um público definido,
muito embora não seja o critério idade o elemento diferenciador; e
rádios generalistas, segmentadas em função da idade e
especializadas num género musical. Nesta última divisão,
encontramos rádios que se especializam em termos musicais e procuram um
target etário definido, mesmo sabendo que as franjas de público se
afastam bastante dessa definição.
A rádio deve obedecer a critérios de criatividade para apresentar os
seus conteúdos. A grande dificuldade está em manter os níveis
de audiência ao longo do dia. Depois do prime time -- ou drive time, se
entendermos que este período de maiores níveis de audiência
corresponde ao espaço de tempo que as pessoas passam dentro dos
veículos -, as rádios de carácter musical brindam-nos com
infindáveis sequências musicais, enquanto outras optam por um estilo
de rádio com programas variados, que tratam todo o tipo de assuntos. Em
muitas rádios, a hora do almoço é aproveitada para fazer um
balanço da manhã informativa, desenvolvendo alguns temas que não
tiveram lugar nos noticiários da manhã, ou pura e simplesmente,
repetindo notícias e reportagens.
A partir das dez da noite, a rádio volta a retomar um estilo
próprio, com programas de autor, entrevistas e conversas e programas de
antena aberta. As madrugadas apostam numa programação de ``fundo
musical'', ou em casos específicos, programas de companhia, que
procuram diminuir a solidão de alguns ouvintes.
Em Portugal parece que, a dada altura, a rádio se foi distanciando das
pessoas, tornando-se mais mecanizada. Esta fase resulta da falta de
profissionais qualificados
4 e da comercialização da rádio. Os grandes
grupos económicos tomaram conta da rádio e hoje, estão todas
formatadas. A rádio tornou-se um negócio, que se quer rentável.
Os métodos tradicionais de produção e comunicação
radiofónica foram ultrapassados e a rádio não se tem orientado
em função do público jovem que encontra noutros meios de
comunicação, formas de criar uma comunidade virtual. Apareceram
novas ofertas para os ouvintes, como os canais de música na
televisão por cabo e satélite, ou a Internet. A emotividade e em
parte, o sucesso da comunicação radiofónica deriva da capacidade
para estabelecer uma relação afectiva com ouvinte, ao contrário
da distância que se tem demonstrado ao longo dos últimos anos.
Depois de uma geração de profissionais que fez da rádio um
importante meio de comunicação, seguiu-se um período em que o
profissional da rádio era encarado como um
disc jockey, com graves
consequências para a forma como se comunica na rádio. Não se
têm formado pessoas nos últimos anos que possam operar a rádio
em todas as suas funções. As rádios perderam audiência
não só em função da multiplicação dos meios e da
modernização das formas de comunicação e acesso à
informação, mas também como consequência da animação
que perdeu o seu valor, não desenvolvendo a identidade da rádio.
Na actualidade, temos três grandes grupos económicos que dominam o
meio rádio, e assim, é muito difícil evoluir, porque a
tendência é para manter as coisas como estão, a partir do
momento em que se tornam rentáveis.
Num quadro em que, para o público em geral, as rádios parecem todas
iguais, diferenciando-se não ao nível do escalão etário ao
qual se dirigem, mas ao nível dos temas musicais que se ouvem ao longo
das emissões e de alguns programas de autor que ainda resistem, as
estações de rádio apostam na criação e desenvolvimento
de uma imagem de marca para facilitar a identificação do público
com a estação, inscrevendo-se numa lógica que é a de vincar
a diferença entre produtos semelhantes, num mercado carregado de
solicitações para o consumidor e produtos iguais entre si.
A estratégia de grupo assume preponderância face às
estratégias de cada meio e sobrepõe-se à de cada órgão
de comunicação, numa interdependência para a sua
promoção face à concorrência. Para as rádios, a Internet
tem vindo a revelar-se como um excelente veículo nesta estratégia
de desenvolvimento de uma identidade própria, impondo-se como um novo
suporte para a escuta das emissões de rádio e uma forma da
estação se auto promover.
Em Portugal, a rádio vive uma fase de transição que reflecte a
passagem de uma comunicação dialógica para um modelo de
comunicação interactivo, baseado em novos sistemas operacionais. Os
dois modelos convivem, numa fase de transição para um esquema de
comunicação absolutamente bidireccional que irá desenvolver-se
num novo princípio interactivo.
A emissão digital traduz uma ligação ao multimédia,
favorecendo a interactividade, ao mesmo tempo que faz desenvolver uma nova
linguagem, pela incorporação de novos elementos à sua estrutura
discursiva e potencia a criação de novos conteúdos para a
mensagem radiofónica. Em paralelo, o esquema de recepção
acompanha esta evolução, num novo modelo que transforma o ouvinte
num utilizador e favorece a fragmentação das audiências em
função dos seus interesses específicos.
A Internet veio modificar a forma da recepção radiofónica,
transformando o conceito de receptor, noutro que se aproxima mais da
noção de usuário, pela forma como o ouvinte/utilizador toma uma
atitude activa de pesquisa e consumo dos conteúdos. Muito embora ainda
não tenhamos deixado de ouvir rádio através dos receptores
tradicionais, muitas vezes fazemo-lo enquanto consultamos a página web
da estação em causa.
Nesta conjuntura, a ameaça não é a Internet em si, mas a Net
enquanto novo suporte para a rádio, que assim pode perder ouvintes no
seu suporte tradicional, para ganhar novos ouvintes on-line. O que ainda
não se sabe, é se com os avanços da tecnologia, dos programas
informáticos e o consequente aumento da utilização da Internet,
os internautas irão ouvir as estações que estão na rede e
disponibilizam a escuta das suas emissões em tempo real, ou se
passarão a escutar rádio cuja existência se limite à rede.
Este modelo, graças às possibilidades tecnológicas, reconverte o
conceito definido, seja pela adopção de um esquema de múltiplos
canais, pela total ausência da presença humana, ou por outros
factores relacionados com a discursividade do próprio meio. À
emissão em tempo real, a rádio pode juntar novos serviços, pois
a Internet permite verdadeira interactividade entre o som, a palavra escrita
e a imagem, numa complementaridade típica dos meios de
comunicação social. Além disso, apresenta-se como mais um canal
que ultrapassa as (já poucas) limitações das ondas hertzianas e
transforma a emissão de uma estação local à escala mundial.
Da apresentação e análise efectuada às estações de
rádio portuguesas a operarem na web, verificámos diferentes
estádios de evolução relativamente ao panorama nacional e
internacional.
Cada estação de rádio tem objectivos diferentes para este novo
meio. Em muitos casos, é encarado como mais um suporte de
comunicação que, entre outras razões, pela implantação
da Internet nos lares portugueses, ainda não se assume como primordial.
A página de cada rádio deve ser um vínculo entre o ouvinte e a
estação, com informação de carácter institucional e
organizacional, ao mesmo tempo que agrega informações práticas
sobre a programação, artistas e músicas, bem como os locutores
da estação.
Podemos estabelecer uma sistematização em função do
género prevalecente em cada estação de rádio - as de
carácter informativo e as de entretenimento -, mas não podemos,
criar a mesma linha divisória relativamente à estrutura do site,
estratégia de comunicação on-line e ligação entre o site
e a comunicação FM, pois em qualquer dos formatos, a presença na
rede assume contornos que se ligam não ao seu conteúdo, mas à
importância dada por cada estação a este novo meio.
As estratégias operacionais desenvolvidas baseiam-se essencialmente na
ideia de veículo de promoção para a estação e no eixo
estabelecido pelo potencial interactivo da Net, estando a generalidade das
estações pouco vocacionada para a produção de conteúdos
que explorem os principais traços da identidade da Internet. Esta
afirmação justifica-se pelo pragmatismo da indubitável
relação entre custos de produção/manutenção e
retorno financeiro que é praticamente inexistente, pela falência da
publicidade nos websites, e pela ausência de conteúdos de acesso
pago.
Em Portugal, não encontrámos na Internet projectos que desenvolvam o
conceito de webradio. Ao contrário do formato tradicional, na web é
muito fácil a mesma rádio ter uma infinidade de canais
especializados. Tantos quantos os géneros musicais que se consigam
definir, sem que isso tenha grandes repercussões em termos de custos.
É um processo em desenvolvimento que está num estádio de
descoberta e exploração do novo meio, com as principais
estações de rádio a estenderem o seu raio de acção para
este novo suporte, sem contudo, apostarem de forma decisiva na Internet, sob
o auspício de que a rádio nunca irá morrer e que a Internet
é apenas mais um suporte, um veículo que permite à rádio
chegar mais longe, numa estratégia de complementaridade e
auto-promoção.
O desenho que temos hoje vai ser pulverizado, por necessidade de encaixe em
nichos de mercado e adaptação às novas condições
tecnológicas que se vão desenvolver, com o aumento do acesso à
Internet nos lares e a implementação da rádio digital
(DAB
5 ) que
mudará por completo a rádio como a conhecemos neste momento.
Em conclusão, Portugal apresenta um panorama que revela uma ideia de
transição de paradigma comunicacional que respeita aos conceitos de
consensos, dialogismos e interactividade, expostos na acepção do
carácter monológico -- dialógico que tem traduzido a
evolução da comunicação radiofónica. A fase que
atravessamos é ainda de transição, entre uma condição
dialógica e outra, manifestamente interactiva, com as hesitações
de percurso inerentes à passagem da palavra analógica para a
conceptualização de um modelo plenamente interactivo e digital que
se traduzirá num novo desenho do panorama mundial, pela
implementação de um novo sistema de concepção,
produção, difusão e recepção da comunicação
radiofónica.
- 1
- Resumo da investigação
desenvolvida para uma dissertação de mestrado Ciências
da Comunicação -- variante Comunicação, Cultura
Contemporânea e Novas Tecnologias (A Rádio em Portugal -
Consensos, Dialogismos e Interactividade: da palavra analógica
ao ouvido digital) defendida em 2003 na Faculdade de Ciências
Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
- 2
- O Estado Novo foi o regime
político instituído por António de Oliveira Salazar, e que
vigorou sem interrupção, embora com alterações de forma e
conteúdo, desde 1933 até 1974, altura em que acabou por cair, por
acção de uma conspiração militar dirigida pelo Movimento das
Forças Armadas, em 25 de Abril de 1974.
- 3
- Em Portugal, a televisão deu os primeiros passos, a
preto e branco, a 4 de Setembro de 1956. As emissões regulares tiveram
início a 7 de Março de 1957. Nessa altura, só podia ser captada
na região de Lisboa. Nos anos seguintes, a Radiotelevisão Portuguesa
(RTP) chegaria ao Porto, à Madeira e aos Açores, e depois cobriria
todo o território nacional, com delegações nas diversas
regiões. Em 1968 tiveram início as emissões do segundo canal da
RTP.
- 4
- A única escola de rádio
existente em Portugal -- A Rádio Universidade -- deixou, há largos
anos, de formar profissionais para o meio.
Em 1950, resultante de um
acordo entre o Centro Universitário da Mocidade Portuguesa e a Emissora
Nacional, surge em Onda Média, a primeira emissão da ``rádio
Universidade''. A emissão na Emissora Nacional (Lisboa 2), chegou a ter
a duração de 70 minutos, e era da responsabilidade de estudantes
universitários e pré universitários de Lisboa. A rádio
Universidade, assumiu-se, ainda que informalmente, como uma escola de
rádio, por onde passaram muitos dos profissionais que por essa altura
trabalhavam nas estações de rádio. Dava acesso ao meio a quem
quisesse seguir uma profissão ligada à rádio, como locutor,
realizador, técnico e todo o tipo de serviços essenciais à
composição de uma estação de rádio. O curso era dividido
em três partes: no primeiro ano os alunos eram estagiários, não
tinham acesso à cabine de locução e assistiam às aulas dos
profissionais que já faziam rádio. No segundo ano, passavam a
locutores provisórios e uma vez por semana tinham acesso ao microfone
para ler textos, acompanhados de um ``profissional'' que lhes dava algumas
aulas de dicção e sobre o funcionamento da mesa. No final do segundo
ano, faziam provas de locução e passavam a locutores efectivos.
Depois tinham direito a um programa semanal e ficavam à espera que as
rádios profissionais os chamassem para trabalhar. O essencial para
entrar na rádio universidade era ter boa voz. Primeiro era feito um
teste de voz e passando nesse teste, os candidatos passavam para o curso de
locução, ou eventualmente para os outros sectores de actividade da
rádio.
- 5
- A emissão digital através do sistema DAB, comporta
transformações técnicas e novos desafios à rádio. Os
projectos iniciaram-se no final dos anos oitenta, e a partir de 1992,
estabeleceram-se as bases para a implementação de um sistema de
recepção com qualidade de som equivalente à do CD áudio. A
primeira demonstração do sistema digital em Portugal decorreu no
início de 1998, com a apresentação de um equipamento fixo e de
um veículo equipado com um auto-rádio de Rádio Digital. No
mesmo ano, com a inauguração da Exposição Mundial de Lisboa
- Expo 98, a RDP colocou o sistema em funcionamento a título
experimental. O DAB apresenta bastantes vantagens em relação ao
sistema tradicional de emissão e em Portugal, 70% dos portugueses
já vivem em áreas cobertas pela rede digital (vide mapa).