A coluna de Ibrahim Sued - um gênero jornalístico

Isabel Travancas1

Universidade do Estado do Rio de Janeiro


Índice

Resumo

Este artigo2 procura analisar a coluna do jornalista Ibrahim Sued, publicada ao longo de 45 anos na imprensa carioca. Esta começa a circular em 1951 e apresenta um estilo pessoal, franco e agressivo. Sua notas não retratam apenas as ``fofocas'' e a vida mundana, mas trazem notícias de política, economia, internacional, comportamento, moda e cultura em geral. Dentro da discussão sobre a linguagem jornalística e gênero literário, situo a coluna social de Ibrahim Sued dentro do gênero jornalístico e faço uma análise desta vasta produção - mais de 15 mil colunas - a partir de cinco temas-chave: política, acontecimentos internacionais, Rio de Janeiro, bailes e festas e comportamento.

Estes assuntos permitem que se avalie o lugar da informação e da opinião nas notas de Ibrahim e que se reflita sobre o papel da subjetividade no jornalismo brasileiro atual.

Introdução

O jornalista Ibrahim Sued foi durante muitos anos sinônimo de colunista social no Rio de Janeiro. Escrevendo uma coluna diária - Zum-Zum - que começa a circular em 1951 no jornal Vanguarda, o jornalista cria um estilo próprio de noticiar o mundo e a elite carioca através de suas notas. Filho de imigrante árabe, nascido em Botafogo, Rio de Janeiro, a 23 de junho de 1924, Ibrahim ganhou fama e notoriedade dentro e fora da profissão escrevendo suas colunas com muita personalidade, inventando termos, lançando personagens, criando modismos, elogiando e criticando à vontade. No início da década de 50 eram poucos os chamados ``colunistas sociais'' e mais raro ainda aqueles que não retratavam apenas as ``fofocas'' e festas da classe alta.

Desde o começo, Ibrahim se destaca por seu estilo pessoal, franco e agressivo. E seu texto apresenta notas curtas e diretas, mesclando informações sobre a vida mundana com notícias sobre política e economia ou eventos internacionais. Para muitos, ele é o ``pai'' do colunismo social e criou a ``Escola Turco de Jornalismo''(1999: 478) como ficou conhecida sua coluna, por onde passaram entre outros o atual responsável pela Coluna do Swan de O Globo - Ricardo Boechat - e o também colunista do jornal, Élio Gaspari. Segundo Conti(1999:101), Ibrahim ensinou muito a eles. ``Ensinou que reescrever notícias de outros jornais, `cozinhar' matérias, era bobagem. Ensinou a ir na notícia, a procurar. Que agenda telefônica é um instrumento de trabalho. A fazer sempre o melhor. Não foi um aprendizado suave.'' Isto porque o colunista gostava de ser repórter e sua coluna(1972: 15) refletia a transformação pela qual o jornalismo brasileiro estava passando e produzia ``informação curta, direta, informativa por excelência, muitas vezes agressiva, quase sempre anti-romântica''.

Embora tenha entrado no jornalismo como fotógrafo - uma foto sua, tirada em 1946, na qual o político Otávio Mangabeira beija a mão do general e futuro Presidente norte-americano Dwigt Eisenhower causou furor e foi publicada na primeira página de O Globo - sua coluna logo conquistou o leitor. Depois do jornal Vanguarda, foi publicada na revista Manchete, no Diário Carioca, na Gazeta de Notícias e no Diário da Noite. Ela teve títulos diversos como Crônica social, Jornal de Ibrahim Sued e A semana de Ibrahim Sued, além de Zum-Zum em sua fase inicial.

A partir de agosto de 1954 sua coluna, então intitulada Reportagem social de Ibrahim Sued, passa a ocupar diariamente as páginas de O Globo, onde permaneceu -exceto em um pequeno intervalo- até sua morte em 1 de outubro de 1995.

A coluna foi publicada diariamente de 1951 até 1993, quando passou a circular somente aos domingos. Durante estes 45 anos de trabalho jornalístico Ibrahim Sued redigiu mais de 15 mil colunas, o que expressa o trabalho incansável do jornalista em produzir notas sobre os mais diversos temas. No início ela ficava em torno de 20 cm, tendo dobrado de tamanho com o tempo, chegando em sua etapa final a ocupar meia página de jornal. Seu crescimento expressa também o crescimento de influência de seu autor e o alcance de seu sucesso. Ao longo de sua vida, Ibrahim escreveu seis livros: 000 contra Moscou, 20 anos de caviar, O segredo do meu su... sucesso, Aprenda a receber e Etiqueta. Todos obtiveram grande sucesso de vendas, sendo suas edições rapidamente esgotadas, algumas delas com uma tiragem de 100 mil exemplares.

Ibrahim cresce tanto em prestígio e destaque na imprensa escrita que seu criador ganha, em 1965, um programa na TV Globo, o qual reproduz, durante nove anos, ao vivo, o estilo, tom e os assuntos de suas colunas.

Em 1988 a revista Imprensa publicou uma pesquisa que aponta Ibrahim Sued como o jornalista mais lido no Rio de Janeiro. Seu sucesso é resultado do esforço e da personalidade do autor. Sua coluna não ganha força nem passa a ser veiculada em diferentes jornais do Brasil por acaso. Ibrahim tem consciência da importância da coluna social na imprensa brasileira e não se preocupa em ser modesto. `` Ninguém pode negar que o colunismo na imprensa brasileira é uma especialidade imprescindível nos tempos atuais. E para este colunista isto constitui uma vitória que agora é reconhecida por todos, inclusive por aqueles que tanto nos combatiam. Contribuímos para transformar esse gênero do jornalismo, que até então era um simples `bico' para aqueles que o praticavam em uma profissão honesta, honrada e valiosa dentro da nossa imprensa.''

Os gêneros jornalísticos

A conquista de Ibrahim para si próprio e para o jornalismo brasileiro é fruto de uma percepção da importância da notícia. E neste sentido, gostaria de discutir se o jornalismo pode ser entendido como um gênero e, em que medida estas colunas sociais podem ou não ser chamadas de ``crônicas''.

Penso que a coluna social de Ibrahim Sued pode ser analisada como um gênero de texto jornalístico. Estas colunas podem ser denominadas crônicas, nos dois sentidos que lhe são conferidos por Aurélio Buarque de Holanda(1999: 584) `` texto jornalístico redigido de forma livre e pessoal, e que tem como temas fatos ou idéias da atualidade, de teor artístico, político, esportivo, etc, ou simplesmente relativos à vida cotidiana.'' E ``seção ou coluna de revista ou de jornal consagrada a um assunto especializado.'' Não acredito que a produção jornalística de Ibrahim Sued, possa, entretanto, ser vista como crônica no seu aspecto literário, como ``pequeno conto de enredo indeterminado'', assim definido pelo dicionário Aurélio. Para José Marques de Melo(1994:159)afirmar

que a crônica é um gênero jornalístico constitui uma questão pacífica. Produto do jornal, porque dele depende para a sua expressão pública, vinculada à atualidade, porque se nutre dos fatos do cotidiano, a crônica preenche as três condições essenciais de qualquer manifestação jornalística: atualidade, oportunidade e difusão coletiva.

Entretanto, Melo(1994:136) ressalta que o tipo de texto que Ibrahim Sued apresenta nas páginas de jornal deve ser entendido como coluna, definido como:

um mosaico, estruturado por unidades curtíssimas de informação e opinião, caracterizando-se pela agilidade e pela abrangência. Na verdade, a coluna cumpre hoje uma função que foi peculiar ao jornalismo impresso antes do aparecimento do rádio e da televisão: o furo. Procura trazer fatos, idéias e julgamentos em primeira mão, antecipando-se à sua apropriação pelas outras seções dos jornais, quando não funciona como fonte de informação.

E a coluna de Ibrahim Sued segue isto à risca. Ao longo de seus 45 anos de existência publicou vários furos como a notícia de que Emílio Garrastazu Médici seria o próximo presidente, a nota sobre uma doença ainda desconhecida que estava atingindo principalmente homossexuais e denominava-se AIDS, entre outras.

Além da busca do furo, as colunas têm também a função de descobrir fatos dos bastidores do mundo político, econômico e social, e trazer à tona opiniões que não chegaram ao leitor, assim como ser uma seção onde é permitido a utilização de adjetivos, a expressão de pontos de vistas pessoais além da veiculação de informações com intuito de persuadir seu leitor. Características estas presentes no dia-a-dia do colunismo assinado por Ibrahim Sued.

Por outro lado, a leitura destas cinco décadas de colunas demonstra que esta é o retrato de uma época, de uma cidade, de uma classe do ponto de vista de um jornalista. Ela representa um tipo de jornalismo considerado pessoal ou subjetivo, onde a opinião e a personalidade de seu autor estão presentes. As notas são resultado de uma combinação constante de informação e opinião, quesitos característicos da crônica jornalística. Espaço ``nobre'' do jornal em que o seu autor sai do anonimato, seu nome ganha destaque e ele, ainda que submetido as premissas básicas do jornalismo - clareza, objetividade e concisão -, pode se dar ao luxo de opinar, elogiar, criticar e sugerir, atitudes nem sempre permitidas ou louváveis na prática da reportagem, por exemplo. E Ibrahim defendeu suas posições políticas, elogiou personalidades políticas, criticou outras tantas, sempre com alarde e franqueza. O que despertou amores e ódios. Nunca foi uma unanimidade. Suas notas muitas vezes provocaram polêmica, assim como sua postura política de amplo apoio aos governos militares. Nada disso impediu que, ao longo de todos estes anos de colunismo, Ibrahim fosse imitado, copiado, servisse de exemplo e de modelo para muitos outros colunistas no Brasil. Creio que é possível afirmar que o jornalista Ibrahim Sued tornou-se uma figura paradigmática dentro do campo jornalístico, particularmente do colunismo social.

Temas e tempos

A coluna de Ibrahim Sued nasce nos anos 50, num momento em que o Brasil e o mundo ocidental viveram a prosperidade e a distância do pesadelo da Segunda Guerra Mundial. São nestes ``anos dourados'' que o jornalista constrói sua carreira e sua fama, momento em que as colunas sociais em especial, florescem. Nesta década havia outro colunista além de Ibrahim, Jacinto de Thormes, que dividia e disputava com ele os ``furos'' e os leitores. Até este momento o colunismo não tinha nem o brilho nem a importância que teria a partir de então. E Ibrahim Sued teve um papel de destaque neste momento de mudanças. Sua coluna privilegiava a informação, os fatos políticos, ao mesmo tempo que cobria as festas da alta sociedade com charme e criatividade. Ainda que seu texto não fosse muito cuidado, - pelo qual foi muito criticado durante toda sua trajetória profissional- , suas notas eram objetivas e leves. Não é à toa que as colunas dos jornais e revistas dos anos 50 para cá cresceram muito em prestígio, tamanho e quantidade. Hoje os colunistas são o ``charme'' do jornal, a atração a mais que um veículo oferece ao seu leitor. Naturalmente que este fato está relacionado à necessidade que o leitor tem de obter o maior número de informações possível no menor tempo e com a leitura mais agradável. Atualmente nenhum jornal pode se dar ao luxo de não ter ao menos um colunista. E a coluna social não pode mais ser apenas uma cobertura de festas e eventos sociais da elite. Ela precisa informar, dar ``furos'', transmitir notícias de bastidores, em estilo mais pessoal e informal, não exigindo de seu leitor um grande esforço para acompanhá-la.

Ao longo desses 45 anos de jornalismo, a coluna de Ibrahim Sued retratou a sociedade carioca, o Brasil e o mundo. Ela foi um reflexo da sociedade e a sociedade se refletiu nela também. Podemos acompanhar através dela alguns fatos marcantes de todos esses anos. As mudanças da moda e dos comportamentos, as festas e viagens, os personagens criados pelo colunista como a Dama de Preto, das gírias e expressões como ``bonecas e deslumbradas'', ``vagões e locomotivas'', ``su'', ``ademã'', ``kar'', ``shangay'', ``cavalo não desce escada'', `` em sociedade tudo se sabe'', ``sorry periferia'', ``padres de passeata''; as campanhas que incentivou, os astros internacionais que convidou para participar do Carnaval carioca, os desfiles de moda que promoveu e a cidade que tanto defendeu.

Nas suas mais de 15 mil colunas, Ibrahim sempre selecionou temas e notas segundo um critério jornalístico e pessoal. Seus textos tratavam de assuntos como política, políticos, acontecimentos internacionais, cidade do Rio de Janeiro, boites e restaurantes, modas e desfiles, comportamento, fins de semana e viagens, carnaval, cultura de um modo geral, astros e pessoas famosas, economia, saúde, esportes, bailes e festas, jogos e etiqueta. Para este trabalho selecionei cinco temas que estiveram presentes em sua coluna desde Zum-Zum até a última publicada em 24 de setembro de 1995. São eles: Política, Acontecimentos, Rio de Janeiro, Bailes e festas e Comportamento. Os três primeiros seriam representantes da vertente jornalística da coluna e os outros dois do lado mais mundano de suas notas. Dentro de cada um destes temas selecionados a partir de uma escolha anterior do colunista, está presente o estilo do jornalista e sua opinião pessoal.

Um exemplo do jornalismo pessoal de Ibrahim Sued são as notas agressivas de sua fase inicial, que não poupavam personalidades ilustres nem políticos. O PTB, assim como sua opção de não votar neste partido mereceu nota, a transferência da capital para Brasília - fato do qual discorda com veemência - , e a crítica feroz ao regime implantado em Cuba por Fidel Castro foram destaque em seus textos. Se analisarmos suas notas dos anos 90, veremos que embora a veiculação da coluna tenha diminuído, seu estilo não mudou. Ibrahim Sued não hesita em apoiar enfaticamente a candidatura de Fernando Collor de Melo para Presidente da República, a quem chama de ``demolidor'' ou em criticar a UNE pelas suas passeatas e pelo estímulo aos estudantes a não comparecerem às salas de aulas. O mesmo se deu nas décadas de 60, 70 e 80, quando podemos acompanhar - através de suas colunas - os personagens do cenário político brasileiro. Ibrahim Sued informa o leitor sobre o que está ocorrendo e juntamente com a informação fornece sua opinião sobre o fato. Em todos os temas - essa é a marca do colunista - Ibrahim é franco e direto em suas posturas. Não esconde o jogo do leitor e dá a sua versão dos fatos.

Em relação aos Acontecimentos internacionais é marcante o recorte escolhido pelo jornalista. De maneira geral suas colunas não se furtam a comentar ou noticiar os chamados ``grandes eventos'' como a eleição de Peron na Argentina, a coroação da Rainha Elizabeth da Inglaterra, o início da guerra do Vietnã, as mortes de John e Bob Kennedy, Salazar, de Gaulle e do Papa Pio XII, o caso Watergate e a guerra das Malvinas. Em primeiro lugar há uma ênfase na sua pessoa. Em geral o colunista conta que esteve presente a determinada cerimônia, que cumprimentou a personalidade citada ou acrescenta ao fato algum aspecto particular e muitas vezes inusitado. No caso da guerra do Vietnã, junto com a informação sobre a guerra, ele cita dois brasileiros, filhos do pianista Djalma Ferreira, residentes nos EUA os quais poderão ser convocados. Outro aspecto presente em suas notas são os elogios ao presidente português Salazar denominando-o grande estadista, assim como aos Kennedy e ao presidente francês morto. Em relação a este último ele afirma, por exemplo, que uma das primeiras pessoas a enviar condolências foi o embaixador brasileiro e cita um trecho de sua mensagem. Creio que estes exemplos ilustram a maneira como Ibrahim tratava os acontecimentos internacionais que noticiava, relacionando-os muitas vezes com sua própria pessoa, misturando-os com sua opinião sobre o mesmo ou associando o fato a outra pessoa ilustre ou a um detalhe que personalizasse a notícia

No que diz respeito à cidade do Rio de Janeiro há muitos comentários a fazer. Antes de mais nada, ressaltar que Ibrahim sempre foi um apaixonado pela ``cidade maravilhosa'' que defendeu através de sua coluna. Por isso foi tão difícil para o jornalista aceitar a mudança da capital para Brasília. Ele reclamou até o fim desta decisão, embora elogiasse a capital e sua arquitetura, nunca deixou de chamar de ``Belacap'' a sua cidade.

Outro dado relevante em relação ao Rio de Janeiro é que este tema reúne os dois eixos da sua coluna: notícias gerais e informações sobre a vida mundana da cidade. Ibrahim é capaz de: reclamar da falta d'água, criticar a fusão Rio-Niterói, comentar o centenário de Copacabana, sugerir a remoção da favela que se forma em cima do túnel Velho, promover a Feira da Providência e falar da sua praia e do seu programa carioca no fim de semana. Em cada um deles está presente a sua marca. Na nota sobre a falta d'água Ibrahim ocupa o papel do jornalista que luta pelos seus direitos e os de seu leitor, defendendo-o dos absurdos impostos pela ineficiência do Estado. Ao criticar a fusão, exprimindo sua opinião, afirma que o carioca está contra este acontecimento, dando mais força a sua posição. Na sugestão de remoção da Favela, o jornalista apresenta um alerta e aponta para dois aspectos da questão. A sua preocupação com a cidade e a necessidade de se solucionar um ``problema'', e a visão da elite de como a favela ``estraga'' a vista do turista, dado citado na nota para enfatizar a sua perspectiva e a importãncia da medida. A nota sobre a Feira da Providência,- feira organizada por senhoras da alta sociedade em benefício dos pobres -, demonstra a perspectiva assistencialista desta classe em relação ao problema social da cidade do Rio de Janeiro. Comentar seu fim de semana reforça novamente o aspecto ``egocêntrico'' de sua coluna. Ele destaca a praia do Castelinho como ``sua'' praia e reafirma o seu pertencimento a uma elite carioca que nos anos 70 frequentava aquele trecho da praia de Ipanema. Outra nota mais contundente, que deixa claro para o leitor de que lugar da sociedade ele fala, é o comentário sobre a dificuldade de circular na cidade com a sua Mercedes porque o trânsito anda ruim. Este fato me faz lembrar o texto do antropólogo Néstor Garcia Canclini((1996:55) sobre consumo. A seu ver, nas sociedades contemporâneas há uma disputa pela apropriação dos meios de distinção simbólica. E os locais que os membros de uma classe freqüentam, passam férias, estudam e se divertem, assim como os livros que lêem fazem parte de uma lógica que se baseia na escassez dos mesmos. Eles ``funcionam'' principalmente como objetos de distinção entre indivíduos e classes mais do que como objetos de satisfação pessoal.

Agora estamos entrando em um mundo particular o da elite financeira, política e cultural do Rio de Janeiro e também do Brasil. Falar de Bailes e festas é falar de uma das principais atividades deste segmento. E sem dúvida este é um dos temas importantes na coluna de Ibrahim. É onde a própria elite se vê e se reconhece e é através dela que as outras classes podem conhecê-la e identificá-la. E dentro desse assunto a variedade é grande e o principal aspecto é o descritivo. É fundamental que o colunista possa contar os detalhes da decoração do ambiente, das roupas dos convidados, dos itens do cardápio, das personalidades presentes, das ``fofocas'' ocorridas, além de descrever o ``clima'' do evento.

As festas de debutantes durante duas décadas foram as mais noticiadas, sendo que algumas delas eram organizadas pelo próprio colunista, misturando notícia e noticiado, em uma interferência direta do jornalista no evento. Outros bailes noticiados eram internacionais, demonstrando a amplitude da circulação de Ibrahim Sued e trazem para o leitor uma amostra do high society internacinal. É o caso da festa organizada pelo Xá e sua esposa Farah Diba para comemorar os 2500 anos da Pérsia e para a qual construiram 60 tendas para receber os convidados, contrataram 150 maîtres e estavam previstos 60 reis coroados e gastos em torno de 10 milhões de dólares. Notas como esta vêm satisfazer a curiosidade do leitor também em relação à vida e à intimidade desta classe social. Nestas notícias sobre as festas estaria marcada a própria identidade da coluna social, interessando portanto aos leitores que são notícia - os que pertencem à elite - , e também aos que sonham em um dia ser notícia.

É Marques de Melo(1994:140) quem destaca o papel do público leitor de colunas sociais.

O colunismo atende a uma necessidade de satisfação substutiva existente no público leitor. Já que a maioria das pessoas está excluída do reduzido círculo dos colunáveis(poder/estrelato), dá-se-lhe a sensação de participar desse mundo, através dos colunistas. Trata-se de uma forma de participação artificial, abstrata. Participam sem fazer parte. Acompanham à distância.

Em relação ao tratamento dado pelo colunista ao tema Comportamento, creio que valeria a pena destacar as notas que dizem respeito à mulher, e pensarmos de que mulher ele fala e para qual mulher. Há uma construção de uma imagem feminina presente em suas cinco décadas de coluna. Nos anos 50 Ibrahim comenta o fato de a mulher que trai o marido ser criticada pela sociedade e chamada de ``mulher que não presta'', salientando o preconceito nesta atitude, diferente em relação aos homens. É inevitável lembrar do caso Angela Diniz e sua morte trágica, que gerou muita polêmica. Angela Diniz foi presença constante nas colunas sociais de Belo Horizonte desde seu casamento até sua morte, e é pesquisadora Maria Céres Castro(1997: 117) quem comenta a construção pela mídia de uma personagem que nasce com seu casamento em estilo ``conto de fadas'' até chegar a posição de mulher ``feita e decidida'', ``locomotiva'' da sociedade, para usar um termo de Ibrahim.

No jogo de luz e sombra produzido pelos relatos das colunas configura-se uma visão fantasmática do social, um mundo de poucos, na maioria bem-nascidos, sempre bem sucedidos, que atuam sob os holofotes da mídia, consentem no devassamento de sua privacidade - afinal, são personagens públicas - e se sabem ou se desejam objetos de atenção da multidão. É para ela que a `sociedade' se representa, ou melhor se apresenta. E, mais do que uma representação, vê-se aí uma a-presentação do social, o qual se encontra, enquanto construção simbólica, sempre eludido no discurso, mas se constrói somente pela alusão.

Angela Diniz é o símbolo da mulher que trai e é morta, mas que seu assassino é ``perdoado'' pela sociedade numa expressão de seu machismo. Mais tarde, Doca Street, o autor do crime é condenado como resultado de uma mudança de mentalidade na sociedade brasileira e da campanha empunhada pelo Movimento Feminista.

Já na década de 60, Ibrahim apresenta um modelo para a mulher de 1967. `` Antes de mais nada, a `mulher 67' tem que agradar aos homens. Agradar às mulheres ou às amigas não resolve...É burrice Ser discreta. Isto é feminina: nada de masculinidade, como essa palhaçada de terninho. Falar alto, dar gargalhadas estrondosas, são outros detalhes que os homens detestam. Eu, no meu caso tenho horror...'' O colunista não está neste caso noticiando um fato, ou descrevendo aspectos da vida do high society, mas ajudando a construir um ideal de mulher, com a qual as mulheres da elite possam se identificar e as das outras classes se espelhar.

Nos anos 90, a mulher esboçada pelo colunista tem um perfil físico estabelecido. Ele mesmo afirma que `` as mulheres ligeiramente musculosas são os novos modelos de beleza e saúde''. São mulheres que podem se dar ao luxo de freqüentar duas horas diárias de uma academia de ginástica e dispor de muitos outros cuidados com o corpo, uma vez que esta década também aparece nas colunas de Ibrahim, com uma grande preocupação com a saúde, expressa em dicas de dieta, exercícios, alimentação e outros cuidados com o corpo.

É interessante notar como dentro de Comportamento, há por parte do colunista a intenção de estabelecer um padrão de atitudes muitas vezes inacessível para o resto das ``mortais'', como o ideal de mulher bonita que se comporta dentro dos moldes pré- estabelecidos pela sociedade e pela coluna.

Conclusão

A leitura das colunas sociais elaboradas pelo jornalista Ibrahim Sued durante cinco décadas permite algumas conclusões. No início de sua carreira as colunas sociais não eram frequëntes nem tinham o formato e o conteúdo que apresentam hoje com enorme sucesso e grande número de leitores. Por um lado, podemos observar que houve uma grande transformação em sua feição e Ibrahim Sued, sem dúvida nenhuma, teve um papel relevante neste contexto. Deu um novo fôlego às colunas, misturou informação com opinião, inventou um estilo. Por outro, o que se pode notar nesta ``demanda'' de colunas e procura dos jornais de novos e atraentes colunistas é o quanto a sociedade contemporãnea está cada vez mais ávida de informações curtas e rápidas. Em minha minha tese de doutorado(1998: 10) pude discutir um pouco a relação do leitor moderno com o texto jornalístico.

O homem moderno tem pressa, tem pouco tempo, quer receber o máximo de informações no menor tempo possível. É a corrida da sociedade moderna, da vida na metrópole. E o jornal e o jornalista seriam a expressão deste novo estilo de vida. Vai longe o tempo em que o próprio texto de jornal estava mais próximo da literatura e de um leitor menos apressado.

E Ibrahim Sued é um jornalista atento às necessidades de seu leitor, consciente e ``orgulhoso'' de seu papel de repórter. O colunista sempre declarou que sua linhagem começava com ele mesmo e que tudo o que conseguiu na vida foi graças à profissão. Ao pesquisar os jornalistas(1993), pude perceber o quanto a profissão ocupa um lugar central em suas vidas, definidor de uma identidade, bem mais do que uma atividade ou emprego na vida de seus profissionais. Ela exige uma adesão de quem a escolhe que resultará em um estilo de vida e uma visão de mundo particulares. A profissão surge como expressão de suas individualidades. E Ibrahim de maneira alguma é exceção dentro deste universo. Seu papel fundamental é ser jornalista e mais especificamente colunista social, e esta função será definidora do seu estilo de vida e de sua visâo de mundo. Pierre Bourdieu(1997) afirma que ``os jornalistas têm óculos especiais a partir dos quais vêem as coisas''. Seguindo nesta direção, poderia afirmar que Ibrahim usa não apenas o ``óculos'' de jornalista, mas de um jornalista específico - o colunista social -, e a sua perspectiva da sociedade brasileira, dos fatos, do mundo está impregnada desta identidade. Ibrahim escreve a sua coluna de um lugar muito particular -da elite-, analisa as notícias sob este prisma. Sua coluna pode ser lida como um processo de entrada neste outro ``mundo'' social, na medida em que sua origem é humilde. Ele conquista um espaço social e jornalístico. E é compreensível o sucesso de sua coluna. O leitor quer, por um lado, textos curtos e tem cada vez menos tempo para se dedicar à leitura do jornal, por outro, os espaços reservados à subjetividade dentro da imprensa diária estão cada vez mais restritos. A imprensa busca a objetividade acima de tudo, a isenção diante dos fatos. E uma coluna social ainda é um território preservado onde as subjetividades, opiniões e personalidades podem se manifestar livremente. Para o prazer do leitor e com o consentimento do jornal.

Bibliografia



Notas de rodapé

... Travancas1
Isabel Travancas é jornalista, mestre em Antropologia Social pelo Museu Nacional/UFRJ e doutora em Literatura Comparada pela UERJ. Sua dissertação de mestrado O mundo dos jornalistas foi publicada pela Summus Editorial. Atualmente é professora nas Faculdades de Comunicação Social da UERJ e Estácio.
... artigo2
Uma versão deste artigo foi apresentada no GT Gênero e Cultura de Massa, coordenado pela professora Maria Celeste Mira, no XXIII Congresso da Intercom, realizado em Manaus, em setembro de 2000. Ele foi produzido após um trabalho de pesquisa no arquivo pessoal de Ibrahim Sued realizado durante seis meses por encomenda da editora Rocco para um livro sobre o colunista que deverá ser lançado em 2001.